O barulho dos ponteiros já não faz mais diferença. As vozes ao longe, olhares fugitivos, talvez escondidos. Mais uma vez estou parada aqui, pensando em quantas vezes fiz ou deixei por fazer, quantas vezes me arrependi por não ter feito. Em como ainda vou esconder tudo o que corre pelas minhas veias, tudo o que eu queria dizer e não digo, pequenas parcelas de palavras deixadas pra mais tarde, como pra provar que o meu corpo continua não aguentando tanto volume. Pecando no estrago até me sentir desumana e sem ar, até achar ser suficiente e não ser. Esperando que alguma luz ainda consiga entrar em qualquer vão da armadura que eu construí pra mim. Sentindo medo da verdade e do errado, sendo contraditória mesmo sem querer. Medo de tudo o que a água me traz, a falta, a saudade, o ódio e a indiferença, querendo que ela traga aquela velha alegria que eu tanto gostava de carregar comigo. Olhando para as chaves todos os dias, desejando não tê-las. E depois de tudo isso, acabar no sofá da sala, com o leite derramado e achando que é bom ser como é.