Ouço a música de sempre, a que me faz lembrar involuntariamente de algum momento bom, alguma lembrança que em meio a tantas outras, me faz sentir viva. Alguma que me faz lembrar como eu era, de como minha alma era tão mais transparente. Assim, é inevitável não lembrar o meu velho paradoxo, entre minha razão e meu coração. Partes antagônicas dentro de uma pessoa só. Uma que gosta da liberdade, da sensação de pertencer apenas a si mesmo, não depender de alguém para se sentir completa. Sem obrigações, sem pretensões, sem frases feitas e repetidas inúmeras vezes. Sem sorrisos misturados em um misto de felicidade e satisfação, sem depender de olhares. Quer a velha diversão, e não se importa se a felicidade é feita de momentos, que juntos, formam algo razoável. O futuro não satisfaz, a vida é agora, e não acredita em paixões duradouras, todos são iguais, isso é fato. Usam, abusam, usam novamente, e burras elas, que se deixam levar tão fácil por algumas palavras, dando à situação aquela pitada de romantismo. Já se entregou, já acreditou, e agora, mesmo que quisesse, não acreditaria. Se esconde, não quer saber, não quer pertencer, não quer se misturar e foge, sempre que se sente ameaçada. Os braços já não são tão abertos, o desprezo se esconde em outra parte do corpo. A outra implora por proteção, por olhares sinceros, por abraços reconfortantes. Quer alguém pra dividir sua história, e fazer uma só, quer ver o pôr-do-sol numa tarde de domingo, quer tardes regadas a filme e pipoca, quer guerra de travesseiros, quer beijos intermináveis, quer sorrisos constantes, que em um dia frio, fazem toda a diferença. Quer que a insegurança seja coberta por qualquer outra coisa que valha a pena, quer pra si e quer ser um ombro amigo, um baú de segredos e confissões que acabem com risadas, e não com ódio. Precisa de promessas, precisa apaixonar-se loucamente e experimentar o lado mais colorido da vida, precisa de sussurros ao pé do ouvido, brigas só pra ter que fazer as pazes mais tarde. Pensa em futuro, em algo além daquele presente, daquele momento, daquele olhar. Necessita de suspiros no meio da rua, sorrisos que esboçam qualquer tipo de surpresa, sorrisos que vêm aos lábios assim, sem querer. Quer se perder e não ter que voltar à margem, quer perder os medos, quer se entregar. Uma forte, outra frágil. Uma prosa, outra poesia. Talvez eu esteja no meio, talvez não.